Momentos fúteis de uma mulher de classe média

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O meu filho Miguel perguntou-me há dias quando é que a crise passava. Disse que desde que se lembra que há sempre crise. Eu sorri-lhe, respondi-lhe que era verdade, mas que havia de passar. No entanto, ao responder-lhe, senti que o estava a enganar... Infelizmente, a verdade é que não sei. E o pior é que  há dias (a maioria dos dias ultimamente) em que nem consigo acreditar que, efetivamente, passe.

Tem-me custado a levantar de manhã e não pensem que é preguiça. Não é. É aquele sentimento de  apetecer esconder debaixo dos lençóis e gritar para me acordarem quando este pesadelo passar. Claro que depois reajo e resmungo comigo mesmo  e acho que eu sou é uma mimada, com uma vidinha organizada, que devia  era ter vergonha ao ver a taxa de desemprego que afeta o país. Reajo, levanto-me, hidrato a cara e o corpo, realço o verde dos meus olhos e saio para a rua. Respiro fundo, tento sorrir mais e valorizar as pequenas coisas.
Afinal, tenho idade para encarar as coisas com maturidade, sei que devia agradecer a vida e a família que tenho, devia parar de ser fútil e sentir que austeridade (também) pode rimar com austeridade.

Mas, para ser completamente honesta convosco,tenho que admitir. Eu, Sofia, uma mulher portuguesa de classe média, quarenta e um anos e três quartos, três meios metros de gente, bem casada e com dois petizes lindos, tenho saudades de quando não tinha que fazer tantas contas, de quando podia planear férias, de como era não me sentir culpada quando pensava em comprar um vestido novo...

19 comentários :

  1. Tal como tu, não vejo um fim decente para esta trapalhada toda em que nos vemos enterrados. E a sensação é mesmo essa..culpa de gastar uns trocos, por não saber como será (literalmente) o amanhã!

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  2. Ui que idade tem o puto que sempre viu a crise...

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  3. No meio disto tudo é sempre a classe média que mais se lixa... E é a dita classe média que mais contribui para este país...

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  4. Sofia, faço meus os seus comentários, se mo permite. Também tenho 41 anos, 2 pequenotes e muitas saudades de quando a consciência não me pesava por este ou aquele capricho...Também me sinto afectada animicamente embora não me possa queixar. Também eu tento valorizar o que tenho, mas é difícil não deixar entrar este cinzentismo que se vive :( E embora saiba ou queira saber que melhores dias virão, estes que vivemos arrastam-se sem fim à vista...

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  5. Eu também tenho pouca esperança neste país...cada vez que oiço os preços disto e daquilo até me enervo...a minha vontade era emigrar daqui para fora! A sério, já cansa tantos aumentos, tanta coisa que deixamos de fazer...para mim seria um luxo usar unhas de gel, fazer depilação definitiva, ter quem me passasse a roupa a ferro, raio de crise!

    A verdade é que quando entrei na Universidade, em 2002, já se falava em desemprego e que isto estava mal...e a verdade é essa! Mas como diz o povo. Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe!

    Beijinhos

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  6. teremos de estar atentos à Ásia... quando eles melhorarem ao nosso nível ou nós piorarmos ao deles... a coisa começa a melhorar para todos. ou isso ou voltamos a ter fronteiras com produtos importados com elevadas taxas, o que facilita a produção nacional... mas que nunca mais vamos ter a vida de até há três anos... isso, não na nossa vida, talvez nas dos teus pequerruchos...
    também não quer dizer que vá ser a desgraça absoluta. não! haverá um final. como em tudo. e como sempre houve.

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  7. Desculpa Sofia, sempre gostei muito de ler-te mas ao ler isto o primeiro pensamento que me vem à cabeça é:"que lata, eu estou no desemprego, a minha mãe está no desemprego e o meu pai de baixa." O meu último pensamento é a pena que tenho de não puder comprar um vestido.Eu sei, eu sei que não tens culpa mas a situação que passo não me deixa ser politicamente correcta.
    Maria Figueiredo

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    1. Tens toda a razão, Maria. E é isso que me faz sentir mal por me queixar. Isso e ver que ninguém estimula o emprego nem ajuda quem mais precisa.
      Um beijo enorme e força!

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  8. Esta ideia de que não nos devemos queixar porque há sempre alguém pior do que nós é bem "portuguesinha"! Há alguém pior do que nós? Há sim senhora! Por isso deve reclamar, devemos fazer-nos ouvir! Devemos todos, porque se nos acomodarmos,isto não vai de certeza melhorar e daqui a algum tempo não haverá quem esteja pior, vamos estar todos mal. Eu queixo-me e vou continuar a queixar-me por tudo o que me tiraram e que pretendem, ainda, tirar, apesar de ter trabalho e de saber que, infelizmente, existem muitos em pior situação. É um direito que me assiste!

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  9. E tens toda a razão minha querida! está tudo caríssimo e no final do mês já nem sobra nada para pequenos mimos.
    Atualmente ir a um cinema é um luxo. Ir jantar fora é um luxo.
    Beijinho mt grd

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  10. Desde à muito que ouço falar em crise, mas agora nota-se que cada vez se compra menos com o mesmo dinheiro:(

    http://beleza-natural2012.blogspot.com

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  11. É bem verdade que hoje em dia quem tem emprego é um grande felizardo, mesmo com corte nos salários, mesmo sendo um salário não muito alto, é dinheiro com que podemos contar ao fim do mês.
    Pior estão os desempregados, como eu que de um dia para o outro ficam sem emprego, sem um salário que faz muita falta ao fim do mês para pagar despesas fixas, com uma filha e com o 2º a caminho, e o pior de tudo sem nenhumas prespectivas de vir a arranjar emprego, na minha área ou fora dela e com a agravante de ter 39 anos. Eu sei que a Sofia se sente assim pois sente a dores das outras pessoas, mas para ser sincera se eu estivesse na sua situação era uma pessoa bem mais feliz.

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  12. Olá subscrevo inteiramente e achei curioso, porque ainda na semana passada a minha filha (8 anos) perguntou-me: "Mãe quando eu for grande, vai haver mais dinheiro?" e eu também lhe disse que sim...embora enquanto o dizia, senti o meu coração apertado, apertado e pensei...não sei, é que não sei mesmo o que será o futuro...e senti-me tão angustiada! Primeiro porque realmente lhe menti, depois porque me preocupo muito com o seu/meu futuro e por último mas sem dúvida o mais importante, porque me senti muito, muito triste por a minha filha aos 8 anos ter este tipo de preocupação na sua cabecinha. Eu com a idade dela não tinha qualquer noção destas coisas - e não, não sou proveniente de uma família rica....

    Um beijo, gosto muito do seu blog

    Kity

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  13. sofia, tb sinto muito isso. e tb sei que não me posso queixar porque -até ver- eu e a família mais chegada estamos muito bem, sem abalos de maior!

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  14. Debato-me como toda à gente com as crescentes dificuldades do meu dia á dia. Receio sim o meu futuro, as dificuldades da minha velhice (se lá chegar - todos sofremos por antecedência) mas mais que tudo receio pelos Migueis, pelos Gonçalos, e todas as outras crianças que irão herdar o caos de hoje. Deixei de ouvir noticiários há cerca de um mês. Vivo melhor? Pelo menos vivo apenas o dia de hoje que por vezes já é bastante dramático. Amanhã se verá....

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  15. só te queixas

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  16. O meu filho fez agora 18 anos e um destes dias falávamos sobre saídas profissionais, e ele disse-me "eu já sei o que me espera quando acabar o curso; nada, tenho o nada à minha espera".
    Que raio andamos nós a fazer com este país?

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  17. Acho que somos muitas nesta situação :-(
    Esperemos qua as coisas mudem para melhor.
    Elsa

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