Nós, as mulheres.

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Elas fizeram greves de braços caídos.
Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta.
Elas gritaram à vizinha que era fascista.
Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas.
Elas vieram para a rua de encarnado.
Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água.
Elas gritaram muito.
Elas encheram as ruas de cravos.
Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes.
Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua.
Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo.
Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas.
Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra.
Elas choraram de verem o pai a guerrear com o filho.
Elas tiveram medo e foram e não foram.
Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas.
Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa.
Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões.
Elas levantaram o braço nas grandes assembleias.
Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos.
Elas disseram à mãe, segure-me aí os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta
a Lisboa dizer-lhes como é.
Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada.
Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão.
Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens.
Elas iam e não sabiam para onde, mas que iam.


Elas acendem o lume.
Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado.
São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.


Maria Velho da Costa, in Cravo. Lisboa, Moraes, 1976.


A  minha amiga Inês publicou ontem no FB e eu trouxe o poema para o meu blogue. Quero-o aqui, a fazer parte do meu arquivo. Eu preciso de passado para enfrentar o presente e  os três últimos versos do poema ainda continuam a ser atuais em grande parte dos lares portugueses.
 Feminismos à parte, a verdade é que, em Portugal, as mulheres continuam a ser as grandes forças na dinâmica das  famílias...

6 comentários :

  1. Muito obrigada por esta publicação Sofia, que nos recorda o que foi e o que ainda é; que relembra a força das mulheres, das nossas avós, mães, amigas, irmãs. Gostei muito.

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  2. Muito obrigado pelo carinho, vindo de ti, uma pessoa que muito admiro, significa muito.
    Um abraço.

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  3. que partilha linda! e que grandes verdades nela inscritas. as mulheres em portugal continuam a ser o centro da família. a ilusão da partilha de deveres e tarefa ainda é isso mesmo, uma ilusão, espantosamente até nos casais mais jovens!
    ***

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  4. É muito lindo o poema!! Bjinhos ;)

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