Eu e o meu complexo de Calimero

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Eu assumo: às vezes sofro do complexo de Calimero. Nada tem a ver com o meus aspeto físico nem  pelo receio de não gostarem de mim. Tem a ver com  o facto de eu morar numa aldeia pequenina, onde sempre morei (com exeção do tempo em que estudei fora) desde os quatro anos de idade.
A verdade é que eu sempre achei que quem morava na aldeia era descriminado e olhado de lado. Se calhar tem a ver com o ter ido estudar para Leiria  quando tinha apenas dez anos e de nós, os das aldeias, termos  sido sempre olhados de lado por colegas  (e  infelizmente por alguns professores da época). Éramos poucos, vestíamos roupa feita pela costureira, não sabíamos o que eram sapatilhas de marca, demorávamos horas nos autocarros e não nos era permitido sentar em determinados sítios onde se sentavam os da cidade.
As idas às lojas também não eram fáceis, fui muitas vezes mal atendida em algumas das lojas mais in da cidade, lojas essas onde, ainda hoje, não ouso entrar.

Mas este meu complexo de Calimero nunca me deu para ter vergonha das minhas raízes. Pelo contrário. Tenho orgulho nas minhas gentes, identifico-me com o seu carácter lutador e visto a camisola. Mal me formei, concorri para a escola da minha terra (e na qual tenho um orgulho enorme), onde felizmente estou. Pois bem, hoje, dia Internacional dos Direitos Humanos, a minha escola recebeu a visita do Nobel da Paz, D. Ximenes Belo.  Motivo de interesse para os jornais de Leiria? Nem por isso...Os órgãos de comunicação semanais nem responderam à informação da visita. 

E é por isso que, hoje, o complexo de Calimero se apossou de mim outra vez. Eu sei que as pessoas das aldeias não são nenhumas coitadinhas, mas por vezes, parece que só quem é da cidade tem direito a uma voz e visibilidade diferentes. Será?

9 comentários :

  1. Também cresci numa aldeia... Sei o que querez dizer. Mas o que interessa é sabermos nos mesmos(falta o acento no "o"... teclado Azerty)o que somos, quem somos. Estarmos de bem com nos( acento no "o") mesmos e deixar os pobres de espirito a sos (acentono "o")com os complexos de superioridade que possam ter... :-)

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  2. Boa noite.
    Sou uma das muitas pessoas que lê o teu blog e pela primeira vez tomo a ousadia de deixar um comentário.
    Também eu sou de uma aldeia, estudei em Pombal que continua a ser uma aldeia, no entanto apesar de ser uma boa aluna, sempre fui descriminada pelas colegas de Pombal, só falavam comigo dentro da sala. Na rua nem bom dia me diziam
    Isabel Gama

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  3. Olá,
    sou uma leitora silenciosa que lê o blog até hoje sem comentar.
    Sou de uma aldeia a cerca de 25 kms de Leiria, fiz o secundário em escolas da cidade de Leiria. Saí de lá aos 19 anos quando fui para a universidade.
    Isto para dizer que compreendo tão, mas tão bem o que dizes sobre essa "discriminação".
    Já vivi em várias zonas do país e arrisco acrescentar um pormenor: esse é um comportamento muito Leiriense, não quer dizer que não aconteça no resto do país, que sei que acontece, mas é muito típico de Leiria.
    Talvez por Leiria ser uma cidade média com tudo o que lhe é característico. Talvez por ser uma região com grandes contrastes: entre a serra, o mar, a praia… entre a população operária da marinha grande e os grandes industriais dos moldes e dos vidro… uma cidade que sempre viveu acima das possibilidades… uma cidade onde em tempos não havia uma única via de acesso aceitável… uma cidade/região que vive muito de aparências… uma cidade que é de 3 ou 4 grandes donos que a enriquecem e estrangulam… tanto há a dizer sobre Leiria :)
    É uma cidade linda e que tem muito para oferecer, mas como tudo na vida tem o seu lado positivo e o seu lado negativo.
    Quando digo que essa "discriminação" é uma característica de Leiria, não quero dizer (de todo!!) que todas as pessoas de Leiria são assim, e nem que isso faz de Leiria uma cidade melhor ou pior que outras.
    É uma característica como tantas outras.
    Beijinho e obrigada por partilhar o seu blog
    rafaela

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  4. Também sou da aldeia e também sofri com isso quando estive a estudar em Lisboa. As "colegas" de lá gozavam por eu ser da província e com tudo e mais alguma coisa. Na altura isso entristecia-me, mas agora tenho é pena delas, pois eu tenho muito mais qualidade de vida, muito mais paz e harmonia, muito mais oxigénio,muito mais mais praia e mar e pinhais quase só para mim, muito mais tudo. Não trocava estes lugares por nenhum outro neste mundo e olha que já viajei muito. Pena daqueles que nos menosprezam.
    P.S.
    Vivo mesmo muito perto de ti :D

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  5. Infelizmente o preconceito e a descriminação é um mal q está enraizado em mtas pessoas, os ricos tem um tratamento diferenciado dos pobres em qualquer sítio, os da cidade tem um tratamento diferenciado do povo da aldeia e etc. Quando vamos nos livrar deste mal? Eu tb por ser brasileira já sofri deste mal quando fui a uma entrevista de emprego em Lagos-Algarve aonde eu vivo, a gerente da loja disse-me que não me daria o trabalho pq as brasileiras só vem para Portugal para roubar os maridos das portuguesas! Mesmo dizendo q era casada e com aliança no dedo ela foi capaz de me dizer tamanha estupidez, argumento típico de pessoas ignorantes, até pensei em registar uma ocorrência por descriminação, mas depois q a raiva passou deixei pra lá pq tenho certeza absoluta de que a própria vida lhe dará uma boa lição! Mas enfim....a vida segue e o sucesso e a sorte estão reservadas para o meu futuro! bjs bjs....

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  6. Acompanho o teu raciocínio, concordo um pouco, vivi todas as situações como tu e numa época bem mais complicada.
    No entanto, afirmo com toda a convicção que esse tipo de reparo ou eventual marginalização me passou totalmente ao lado. Fiz amizades para a vida com pessoas da cidade de Leiria e com pessoas da capital Lisboa com que me cruzei na época estudantil.
    Sou da província com todo o orgulho e é essa postura que mostro a quem quer que seja. A nossa atitude é uma excelente barreira contra a descriminação.
    MAS no dia em que se entregou o premio Nobel à Comunidade Europeia, no meio de muita contestação, à qual junto a minha voz, deixou-se passar sem aviso ou noticia a vinda dum homem que tanto lutou pelo reconhecimento dos direitos de um povo, quer essa visita tenha sido em Leiria ou na Maceira.
    Realmente vivemos num mundo de pernas para o ar...

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  7. Também eu sou da aldeia, também eu estudei nas, vila e cidade, mais próximas, também eu usava roupa feita pela minha mãe (que era costureira). Eu sentia uma certa inferioridade, mas talvez por sempre ter tido um certo “pêlo na venta” , por nunca ter demonstrado que por vezes invejava as roupas da Benneton e por fazer questão de manifestar o meu orgulho em ser da aldeia, nunca senti descriminação.

    Hoje, vivo numa pequena vila, aliás nunca me vi a viver numa grande cidade e quando me junto com os meus amigos que em determinada altura optaram por viver em Lisboa, eu sou a primeira a auto-intitular-me de provinciana mas cheia de orgulho, porque o tenho!

    Quanto ao não darem valor às coisas fantásticas que se faz na província, é que já nem ligo! O que interessa é que fazemos e nós sabemos que fazemos, e sabe tão beeemmm!

    Portanto, olhe nós sabemos que o Prémio Nobel esteve na sua escola e o quanto isso é importante para quem preparou essa visita e mais, o quanto isso é enriquecedor para as crianças (provincianas) que tiveram o privilégio de o conhecer pessoalmente…quantas crianças da capital podem dizer o mesmo???
    Beijo
    PS – isso amanhã já passa! 

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  8. Sofia, não me admira nada, o que conta; tudo o que sempre ouvi falar de 'Leiria' foi sobre pessoas cheias de soberba. Quanto às aldeias, tomara muitos poderem dizer que 'têm' uma... :)
    e a sua árvore de Natal, na sua casa, será sempre a mais bonita, não é isso que importa?!

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  9. Querida Sofia, nasci e fui criada na cidade mas o meu pai nasceu numa aldeia e viveu lá grande parte da sua infância e juventude. E as histórias que ele me conta... dão-me a entender isso mesmo! Que tens toda a razão. Que também o olhavam de lado e o discriminavam de certo modo. Aliás, ainda hoje sinto isso por parte de algumas pessoas, há uma mania de se sentirem superiores a quem mora numa aldeia. Acho isso uma parvoíce, adoro ir à aldeia do meu pai - confesso que em pequena não gostava, mas era apenas porque 'não tinha nada para fazer' - e acho esse tipo de mentalidade muito pequenino mesmo!

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