Um belo trabalho de casa

O Gonçalo anda no 8º ano e eu torço para que ele não descubra como eu me portei durante o meu oitavo ano (uma pista...repeti o ano!). Apesar das respostas tortas que às vezes me dá, sei que, que até ver, nem me posso queixar muito. 

E ontem o trabalho de casa que a professora de Português  mandou, foi ler-me um poema de Eugénio Andrade. Ele, menino bem mandado, leu-me o poema. Eu fiquei sentadinha, deliciada, a ouvi-lo. E, apesar das palavras do poeta me doerem um bocadinho, sei que irei lembrar este nosso momento tão especial vezes sem conta.


Poema à mãe

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves. 
                                             Eugénio de Andrade


3 comentários :

  1. Bonito demais*

    MR*

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  2. Eu ainda não estou preparada para essa fase. A minha mais velha está agora no 4º ano e já me desconcerta!
    vidademulheraos40.blogspot.com.

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